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TOMATE
Estudos revelaram que o pigmento natural do tomate parece prevenir o
câncer de próstata. Mas ninguém sabe ao certo se ele tem tanto poder
assim
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Num dia gordura faz mal. No outro, não é tão ruim assim. Diz o bom senso
que chocolate não é boa coisa. Aí vêm os jornais e dizem que ele faz bem ao
coração. O ovo já foi considerado um dos maiores vilões das artérias. Até
que os cientistas mudaram de idéia. Um ovo por dia não faz mal, passaram a
afirmar. Quem, durante décadas, reprimiu o prazer supremo de furar a gema de
um ovo frito sobre um punhado de arroz - como o escritor Luis Fernando
Verissimo - não foi indenizado. Vinho, azeite, salmão e tomate são a
panacéia do momento. Se fossem consumidos com a freqüência com que suas
supostas propriedades aparecem na mídia (e se elas fossem verdadeiras),
ninguém mais morreria de câncer ou de doenças cardiovasculares. Ninguém mais
envelheceria também. De onde surge tanta confusão?
Quanto mais a imprensa divulga notícias sobre dieta saudável, menos as
pessoas sabem o que pôr no prato. A desinformação brota justamente do
excesso de informações. Até os anos 80, a maioria das pessoas tirava suas
dúvidas sobre saúde apenas com o médico. De lá para cá, um volume enorme de
notícias sobre o tema ganhou espaço em jornais, revistas, internet, TV. Nos
Estados Unidos, o número de reportagens sobre ciência (leia-se saúde, na
maioria dos casos) que ganharam a primeira página dos jornais cresceu de 1%
para 3% entre 1977 e 2004. No mesmo período, os artigos sobre assuntos
internacionais perderam terreno. Caíram de 27% para 14% do espaço total.
O levantamento é do Projeto para Excelência em Jornalismo, um grupo que
monitora a cobertura da mídia. Não há notícia de estudo semelhante no
Brasil. 'Numa escala de 0 a 10, a cobertura de saúde no país merece nota 5',
diz Carlos Vogt, coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em
Jornalismo da Unicamp e presidente da Fapesp. 'Muitas reportagens são
complicadas, afoitas e levianas', afirma. Na maior parte dos casos, a
abordagem é superficial e cheia de exageros. Noticia-se uma revolução atrás
da outra.
A usina de bobagens prospera por várias razões. Os jornalistas têm
pressa. Os cientistas precisam aparecer. As empresas querem vender. O
público busca soluções rápidas. 'Quem tenta emagrecer e não consegue fica
obcecado por resultados. Qualquer coisa aparentemente milagrosa que apareça
na mídia vende muito', diz o endocrinologista Walmir Coutinho, da Associação
Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).
Nos últimos cinco anos, o tema dieta foi capa de 16 edições das três
maiores revistas semanais brasileiras. Nesse período, a ciência não produziu
conhecimento que justificasse tamanho destaque nos meios de comunicação.
Como então eles arranjam tanto assunto? Em geral, as publicações atribuem
aos estudos uma importância maior que a que merecem no mundo acadêmico. É
assim que trabalhos irrelevantes do ponto de vista científico viram capa de
revista. E, é claro, elas vendem muito.
Esse conflito está na essência da complicada relação entre a ciência e o
jornalismo. Partindo do pressuposto de que há profissionais éticos e
responsáveis dos dois lados, é importante lembrar que nem jornalistas nem
cientistas saem de casa todas as manhãs pensando na melhor forma de enganar
a população. Mas os bem-intencionados também erram.
Para os jornalistas, só é notícia aquilo que surpreende. Pesquisas que
confirmam o que o senso comum já aponta não rendem manchetes. No mundo
acadêmico, a lógica é outra. Os estudos médicos mais respeitados são
justamente aqueles que reúnem milhares de trabalhos já publicados sobre o
tema (conhecidos como metanálises) e procuram endossar ou refutar antigas
concepções.
Em um artigo científico, cada afirmação precisa estar embasada em estudos
anteriores. Uma palavra fora do lugar pode comprometer a credibilidade do
pesquisador. Os jornalistas, por sua vez, estão acostumados a fazer grandes
generalizações para tornar um assunto mais claro, mais atraente, mais
vendável. Até quem não entende de comunicação percebe que o tema dieta gera
enorme interesse. E, por isso, não é raro que o repórter de saúde receba do
editor a seguinte tarefa: 'Precisamos de uma capa sobre dieta. Arranje
alguma novidade'.
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Nos últimos cinco anos, o tema dieta foi capa de 16
edições das três maiores revistas semanais brasileiras
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Novidades sempre há, até mesmo no terreno desgastado das dicas de
alimentação e das dietas milagrosas de emagrecimento. Em geral, porém, a
mídia costuma extrapolar as conclusões dos estudos científicos. O que era
válido apenas para determinada população - ou somente para camundongos -
vira verdade universal. Foi o que aconteceu recentemente com a desastrada
divulgação do mais longo estudo sobre consumo de gordura e risco de câncer e
doenças cardiovasculares.
O estudo, financiado pelo governo americano, é o maior já realizado sobre
o assunto. Durante oito anos, foram acompanhadas 50 mil mulheres entre 50 e
79 anos. A divulgação dos resultados da pesquisa que custou US$ 415 milhões
aos cofres públicos deveria ser ótima oportunidade de educar a população. Em
vez disso, a imprensa do mundo todo martelou a idéia de que comer pouca
gordura não reduz o risco de câncer e doenças cardiovasculares.
Era o álibi que os gorduchos precisavam para abusar do torresminho, dos
salgadinhos de boteco, dos doces encharcados de creme de leite. Faltou
explicar que apenas uma pequena parte do grupo realmente conseguiu reduzir o
consumo de gordura até chegar aos índices recomendados. Além disso, o
aumento do consumo de legumes e frutas não foi seguido pelas voluntárias
como deveria ter sido.
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MITOS E VERDADES SOBRE DIETAS
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Só se emagrece comendo menos?
Voltar
receitas enviadaO processo de emagrecimento ocorre quando o balanço energético é
negativo. Ou seja: quando a ingestão alimentar (calorias consumidas em
um dia) é menor do que a necessidade de energia corporal diária e/ou
quando o gasto de energia se torna maior (decorrente do aumento do
metabolismo, seja por prática de exercício físico ou qualquer outra
atividade que acarrete maior gasto de energia).
Isto ocorre porque o organismo utiliza as reservas de gordura
corporal como fonte de energia. Portanto, o processo de engordar e
emagrecer, na maioria dos casos, pode ser considerado uma 'operação
matemática'. As calorias extras das refeições são armazenadas na forma
de gordura. Quando são insuficientes, o organismo recorre às reservas
como fonte de substrato energético para o metabolismo.
Entretanto, o emagrecimento deve ocorrer em decorrência de uma dieta
saudável e equilibrada somada ao aumento do gasto de energia do corpo,
seja pela prática de exercícios físicos ou mesmo aumento das atividades
diárias, como andar a pé, substituir elevador por escada etc.
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Tomate evita o câncer de próstata?
O tomate e seus produtos (principalmente o molho de tomate) são ricos
em um pigmento natural chamado licopeno. Ele apresenta propriedades
antioxidantes. Os antioxidantes combatem os radicais livres que alteram
o DNA das células e desencadeiam o processo cancerígeno. Em 1995,
pesquisadores da Universidade de Harvard avaliaram quase 48 mil homens e
mostraram que a ingestão de 10 porções por semana de tomate e seus
produtos reduziu o risco de câncer de próstata em 35%. Entre os que
usaram molho de tomate, a proteção subiu para 66%. Mas os resultados
ainda não são conclusivos. |
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Adoçante causa câncer?
Não existe evidência científica de que o uso de
adoçantes aumente o risco de câncer em humanos. Quanto aos adoçantes de
nova geração, não houve tempo para avaliação epidemiológica sobre o
possível risco carcinogênico. |
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Abacate engorda?
O abacate foge muito da composição nutricional de outras frutas, pois
é rico em gordura e pobre em açúcar. No entanto, tem na composição pouca
gordura saturada (que apresenta efeitos maléficos para a saúde). A maior
parte é formada por gordura monoinsaturada e poliinsaturada, que fazem
bem à saúde - beneficiam o coração, diminuem o colesterol e apresentam
ação antioxidante. Em comparação com outras frutas, o abacate tem valor
de gordura bem aumentado, mas tem nutrientes importantes como folato e
vitamina E. Por isso, deve ser consumido com moderação e pode, sim,
engordar pelo consumo excessivo e/ou freqüente. |
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Fazer jejum emagrece?
O jejum não é a melhor forma de emagrecer. Reduzir ou
abolir o consumo de alimentos por determinados períodos de tempo torna o
metabolismo mais lento. A perda de peso ocorre de forma errada. Faz mal
à saúde e não é tão eficaz. Desta forma, o organismo passa a manter uma
maior reserva de gordura para utilização de energia caso ocorra um novo
período de jejum. |
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O consumo de salmão evita hipertensão e
acidente vascular cerebral?
Em termos. O salmão é rico em ácidos graxos ômega 3.
Esse ácido reduz a formação de coágulos, diminui os triglicérides e
previne a ocorrência de arritmias. Estudo realizado pela Universidade de
Harvard com 22 mil voluntários demonstrou que a ingestão de peixe no
dia-a-dia reduz pela metade o risco de ataque cardíaco e derrame. Mas
ainda não há consenso sobre isso. |
Berinjela reduz o colesterol?
Não. Ela é popularmente recomendada para esse fim e faz sucesso na
internet. Mas estudos realizados em seres humanos não mostraram efeitos
benéficos da berinjela sobre as concentrações de colesterol. |
Azeite de oliva faz bem ao coração?
Sim. O azeite de oliva traz diversos benefícios ao coração.
Destacam-se: inibição de radicais livres, menor oxidação do colesterol
ruim (LDL) e diminuição da ocorrência de trombose. Recomenda-se o azeite
extravirgem. |
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Vinho faz bem ao coração?
Sim. Alguns estudos indicam que ele ajuda a aumentar o
bom colesterol (HDL). Substâncias presentes na casca da uva rosada
(chamadas de flavonóides) possuem propriedades antioxidantes,
vasodilatadoras e antiagregante plaquetária. Entretanto, não se
justifica o seu emprego com tal finalidade, pois pode ocasionar
alcoolismo, distúrbios de comportamento, aumento dos triglicérides,
arritmia etc. Uma alternativa seria substituir o vinho pelo suco de uva. |
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A margarina é mais saudável que a manteiga?
Sim. A margarina, produzida pela hidrogenação dos óleos vegetais, é
menos prejudicial à saúde que a manteiga, que é rica em gordura saturada
e colesterol. Porém, durante o processo de fabricação das margarinas,
ocorre a produção de ácidos graxos trans, também prejudiciais à saúde.
Quanto mais dura a consistência da margarina, maior será o teor de
ácidos graxos trans. Hoje já existem no mercado marcas livres de gordura
trans. |
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Beber líquidos durante as refeições aumenta a
barriga?
Se a quantidade de líquidos ultrapassar 200 ml, pode
atrapalhar o processo de digestão. E isso provoca distensão abdominal. O
comprometimento do processo de digestão vai além. Com dificuldade para
digerir alimentos, o organismo destina maior fluxo sangüíneo para a
região comprometida. Isso provoca menor oxigenação no cérebro. A
conseqüência é o sono. |
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Comer carboidratos à noite engorda?
Depende. Se a quantidade de carboidrato na refeição
noturna ultrapassar a necessidade do organismo, engorda, sim. A
principal fonte de energia para o corpo humano são os carboidratos. Eles
estão presentes nos cereais, tubérculos, macarrão, pães etc. A
distribuição adequada desse nutriente deve corresponder a 50% ou 60% do
valor calórico total de um dia alimentar. No entanto, ele deve estar
presente nas principais refeições, em quantidades adequadas.
Recomenda-se o consumo de produtos integrais, como arroz integral,
macarrão integral, pães e biscoitos integrais. Ricos em fibras, garantem
saciedade e melhor funcionamento intestinal.
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Melancia é diurética?
A melancia é composta por 80% de água. Portanto,
inserida dentro de uma alimentação equilibrada nutricionalmente, ela
contribui para maior ingestão de líquidos, aumentando,
conseqüentemente, o volume urinário. |
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Sopa de repolho ou chá
verde causam emagrecimento?
Nenhum alimento, por si só, é capaz de, por
propriedades 'mágicas', causar emagrecimento. O que emagrece é o
balanço de energia negativo. Ou seja, gastar mais energia e ingerir
menos calorias. |
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Comer nozes engorda?
Sim. Nozes são calóricas. Uma única unidade tem
quase 40 calorias. Sendo assim, se comermos muitas nozes
diariamente, contribuiremos para aumentar o aporte calórico e,
conseqüentemente, o peso aumenta. Em quantidades moderadas (1 noz/
por dia), esse alimento tem propriedades antioxidantes e protetoras
da saúde do coração. |
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Frutas e vegetais frescos têm mais
nutrientes e vitaminas do que os congelados, cozidos ou em conserva?
Sim. Durante o processamento, os alimentos podem
perder parte de alguns nutrientes, principalmente a vitamina C. |
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Cereais matinais suprem as necessidades
diárias de fibras?
Precisamos de aproximadamente 25g de fibras por
dia. Portanto, precisamos de cereais integrais, frutas, verduras e
legumes. Uma única porção de cereal matinal não supre essa
necessidade. Mesmo porque, é importante lembrar que alguns cereais
como flocos de arroz ou flocos de milho podem apresentar menos de 1
g de fibra por porção. |
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Sucos naturais podem ser consumidos à
vontade?
Não. As frutas têm calorias e os sucos,
principalmente os concentrados, têm uma alta densidade energética, o
que pode contribuir muito para aumentar a ingestão calórica. O ideal
é consumir de 2 a 4 porções de frutas por dia. |
Lanches saudáveis
| A análise cuidadosa do discurso torna
possível perceber que o risco de câncer de mama caiu 22% entre
as mulheres que adotaram as maiores reduções no consumo de
gordura. A dieta com quase nenhuma gordura não reduziu o risco
de câncer colorretal. Mas produziu menos pólipos no intestino,
lesões que podem originar o câncer. Outra limitação do estudo
foi o tempo de acompanhamento: apenas oito anos.
Maus hábitos alimentares são uma das principais causas de
doenças crônicas como as cardiovasculares, o diabetes, a
obesidade e o câncer, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Mas essas mazelas levam décadas para aparecer. O
acompanhamento das pacientes continua e, provavelmente, os
efeitos benéficos da dieta equilibrada poderão aparecer nos
próximos anos. E, mais uma vez, as manchetes vão contrariar o
que foi dito antes.
O exemplo clássico desse vaivém que desnorteia o leitor são
as notícias sobre a dieta de Atkins, que postula uma redução
drástica no consumo de carboidratos e libera o de gorduras e
proteínas, como as do ovo. Atkins soube promover sua dieta
desequilibrada desde os anos 70 sem nunca destinar parte dos
lucros para financiar estudos clínicos sobre seus efeitos. É
verdade que a dieta faz emagrecer rapidamente. Mas quem se
aventura nesse plano recobra todos os quilos (e um pouco mais)
alguns meses depois, segundo a Abeso. Não é de hoje que os
médicos alertam para o risco de doenças cardiovasculares,
distúrbios renais e o terrível efeito sanfona.
O presidente Lula foi vítima dele em 2003, quando adotou a
dieta de Atkins. Recentemente perdeu 12 quilos graças a uma
versão mais leve dessa dieta, que permite carboidratos em
pequenas quantidades.
Apesar disso, volta e meia ela renasce das cinzas com a
ajuda da imprensa. Em 2001, uma revista semanal publicou
entrevista na qual Atkins dizia seguir a própria dieta havia
quase 40 anos. Afirmava que ela não só era eficiente como
havia livrado seus pacientes de remédios contra a hipertensão,
o diabetes ou a artrite. Pois Atkins sofreu morte súbita em
2003. Pesava 116 quilos. 'A família tentou esconder o fato,
mas a necropsia constatou que ele tinha as coronárias
entupidas. O excesso de proteína animal e gorduras da dieta de
Atkins provoca problemas cardiovasculares', afirma Mário
Maranhão, ex-presidente da Federação Mundial de Cardiologia.
A dieta de Atkins - cuja empresa entrou em concordata no
ano passado - não foi a única badalada pela mídia a tombar
vítima da realidade. Em 1968, Linus Pauling, duas vezes
laureado com o Prêmio Nobel (Química e Paz), propôs as bases
da medicina ortomolecular. De lá para cá, a idéia de que doses
elevadas de vitamina C evitam gripes, resfriados e até o
câncer embalou inúmeras manchetes. Linus Pauling morreu em
1994, aos 93 anos. O consumo diário de 15 gramas de vitamina C
não o livrou do câncer de próstata. Hoje, o máximo que se
recomenda desse nutriente são 500 miligramas por dia, segundo
Maranhão. |
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Depois de 40 anos comendo gorduras, Robert
Atkins sofreu morte súbita
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A grande dificuldade da pesquisa sobre alimentos é que ninguém
come uma coisa só. Por isso é tão difícil conferir os efeitos de
determinado nutriente. O tomate virou a aposta da moda. Um pigmento
natural presente nele, chamado licopeno, parece estar envolvido na
prevenção do câncer de próstata, segundo algumas pesquisas. Mas será
que é o licopeno sozinho ou o licopeno com o tomate que tem esse
efeito? E quanto de tomate seria necessário ingerir para se proteger
da doença? Ninguém sabe. As mesmas dúvidas persistem em relação a
outros itens badalados como salmão, vinho tinto, chocolate.
'Muito do que é recomendado hoje provavelmente deixará de sê-lo
daqui a dez ou 15 anos', diz José Augusto Taddei, nutrólogo do
Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo. No
início dos anos 90, o consumo de azeite de oliva era
contra-indicado. 'Hoje, sabe-se que essa é uma das melhores gorduras
que existem', afirma Taddei. Trata-se de um óleo rico em ácidos
graxos monoinsaturados, aos quais se atribui algum papel na
prevenção de problemas circulatórios. Na comunidade científica, cada
descoberta é agregada à informação já existente. É como se fosse um
edifício em que se agrega um tijolinho. Um único estudo - por maior
que seja - é insuficiente para mudar as recomendações alimentares da
população, embora as manchetes façam crer o contrário.
Muitas vezes as mensagens parecem contraditórias, mas são fruto
do avanço do conhecimento. Amargarina, por exemplo, foi muito
recomendada pelo governo americano quando se acreditava que ela
fosse mais saudável que a manteiga. Com o tempo - e muitos estudos
epidemiológicos -, os pesquisadores descobriram que a gordura
vegetal hidrogenada presente na margarina é tão ruim para a saúde
quanto a gordura animal. Durante o processo de fabricação, a gordura
da margarina se transforma nas perigosas gorduras trans, um sebo que
também entope as artérias. Hoje já existem no mercado várias marcas
de margarina livres de gorduras trans.
As pesquisas sobre nutrição podem ser muito complicadas e exigir
mudanças de rota que confundem a população. Muitas vezes, porém, a
imprensa recomenda mudanças de hábito por conta própria. Um dos
episódios mais traumáticos foi o do lançamento do remédio Xenical em
1998. O medicamento reduz a absorção de gorduras em 30%, mas está
longe de ser um passaporte para a farra gastronômica. Ainda assim, a
inovação farmacológica em um ramo com poucas opções eficazes era uma
grande notícia. Merecidamente, foi assunto em vários meios de
comunicação. Mas na maioria dos casos a abordagem foi desastrosa.
Uma revista estampou na capa um prato em forma de rosto. Ovo frito
no lugar dos olhos, coxinha no nariz, sorriso de lingüiça. O título:
'Comer sem engordar'.
'Quase todos os profissionais que falaram à revista eram consultores
do laboratório, inclusive eu. Todos disseram que a publicação não
poderia passar a idéia de que quem toma Xenical pode mergulhar de
cabeça na gordura. Mas colocaram até outdoors dizendo que havia
chegado a pílula para tomar antes de ir à churrascaria', afirma
Marcio Mancini, endocrinologista do Grupo de Obesidade e Síndrome
Metabólica do Hospital das Clínicas, em São Paulo.
Os jornalistas não são os únicos responsáveis pelo desserviço.
Nas últimas décadas, cientistas e médicos passaram a fazer parte da
máquina da mídia. Antigamente, os que divulgavam estudos ainda em
andamento eram esculhambados pelos colegas. Hoje, a pressão para que
apareçam na imprensa é enorme.
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Jornalistas generalizam conclusões de estudos
para tornar as reportagens mais atraentes
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Hospitais e universidades enviam aos jornalistas textos sobre
avanços muitas vezes preliminares. As instituições acreditam que,
com a exposição na mídia, vão ganhar apoio do público e verbas para
pesquisa. Ao mesmo tempo, empresas farmacêuticas e alimentícias
contratam médicos como consultores e os indicam aos jornalistas como
fontes. 'A mídia faz parte desse processo, como nós, médicos,
também. As empresas oferecem US$ 10 mil ao médico para que ele faça
um almoço de trabalho em um congresso. Ele dá uma aula toda dirigida
ao produto que a empresa quer vender', diz Taddei.
Nem sempre a imprensa se dá ao trabalho de verificar quem
financiou a pesquisa que vai virar manchete. Boa parte dos estudos é
patrocinada por empresas, o que pode comprometer a confiabilidade
das pesquisas. A nutricionista americana Marion Nestle, da
Universidade de Nova York, levantou casos chocantes. No livro Food
Politics, ela conta como as companhias fazem lobby para mover a
política oficial a favor de seus interesses, passando por cima da
saúde pública. Absurdos coletados por Marion nas revistas
científicas: um estudo afirmava que cereais matinais ricos em fibras
podem reduzir o risco de câncer. Foi feito por um funcionário da
Kellog's. Outro dizia que margarina era melhor que manteiga para
reduzir os níveis do colesterol ruim, o LDL. Foi financiado pela
Associação Nacional dos Produtores de Margarina.
Um dos famosos estudos que associam a ingestão de duas a cinco
taças de vinho tinto por dia à redução da mortalidade foi
patrocinado pelo Instituto Técnico do Vinho Francês. Boa parte das
pesquisas que sugerem que substâncias encontradas no cacau (chamadas
flavonóides) podem proteger o coração foi bancada pela Mars, uma das
maiores fabricantes de chocolate dos Estados Unidos. |
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ESCOLHA COMPLICADA
Com tantas dicas contraditórias, é cada vez mais difícil saber o
que colocar no carrinho
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Isso não significa que todos os estudos patrocinados pela indústria
sejam um embuste. Na maior parte dos países, o governo financia a
ciência básica. Mas o conhecimento gerado nas universidades só se
transforma em produtos se as empresas investirem milhões e milhões nas
etapas seguintes do desenvolvimento. Quando as relações dos cientistas
com a empresa são divulgadas com total transparência, não há por que
duvidar dos resultados. Muitas vezes, porém, resultados ruins para a
empresa são mantidos em sigilo.
Mas, quando a conclusão dos estudos é positiva, as empresas
produtoras de alimentos e a indústria farmacêutica colocam uma
esmagadora máquina de divulgação para funcionar. 'Há 15 dias, recebi 20
artigos publicados em 2005 e 2006 pela Nestlé. Todos eles favoráveis aos
produtos da empresa', diz Taddei. Nessa mesma onda, há empresas de
refrigerante que encomendam revisões científicas e afirmam que o produto
não faz mal. Há também fabricantes de cerveja que dizem que ela é um bom
alimento, desde que consumida sem exagero.
Quem não se lembra do pânico do aspartame? Muita gente baniu esse
tipo de adoçante do cardápio depois que os jornais publicaram estudos
(realizados em camundongos) que o relacionavam com o surgimento de
câncer. A boataria correu solta na internet. Mas nenhuma pesquisa de
longo prazo comprovou que ele seja maléfico. 'Esse caso demonstra a
força do lobby da indústria. Fabricantes de outros tipos de adoçante
encomendaram essas pesquisas para tentar provar que o aspartame é
prejudicial', diz Anita Sachs, professora do Departamento de Medicina
Preventiva da Unifesp.
As pressões da indústria também se tornam visíveis durante a criação
das diretrizes nutricionais divulgadas pelos governos para toda a
população. Nos Estados Unidos, recomenda-se que os adultos consumam
1.000 miligramas de cálcio por dia, o equivalente a quase 1 litro de
leite. Estudos feitos na Escandinávia revelam que 500 miligramas de
cálcio são suficientes para prevenir osteoporose. 'É muito provável que
a indústria americana de laticínios esteja forçando a recomendação de
1.000 miligramas de cálcio para aumentar o consumo de leite e
derivados', diz Anita.
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Quem tenta emagrecer e não consegue acredita em
qualquer receita milagrosa
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O poder de influência também é exercido por meio de anúncios
agressivos na TV. O alvo das propagandas quase sempre são as crianças.
Uma pesquisa realizada pela Unifesp em 2005 mostra que 10% do tempo de
propaganda feita na TV no horário da programação infantil é ocupado por
anúncios de alimentos. Foram avaliadas dez manhãs da programação do SBT
e dez da Rede Globo. Como é de esperar, ninguém anuncia leite, arroz,
feijão, frutas ou verduras. Só aparecem biscoitos, refrigerantes,
guloseimas de todo tipo. 'As pessoas comem cada vez pior no Brasil e são
vitimadas pelos interesses comerciais que o governo não consegue
regular', diz Taddei.
É possível identificar interesses e distinguir a informação que
realmente importa na montanha de textos sobre saúde que lotam a caixa de
mensagens dos jornalistas todos os dias? A tarefa não é fácil. 'Quase
todos os estudos terminam com mais perguntas que respostas e,
infelizmente, os resultados são interpretados pela maioria dos
jornalistas como definitivos. Até hoje há gente tomando suco de
berinjela crua achando que corta o colesterol', diz Durval Ribas Filho,
presidente da Associação Brasileira de Nutrologia. 'O jornalista não
precisa ser um cientista, mas precisa conhecer as nuances que fazem toda
a diferença', diz Alberto Dines, editor-responsável do Observatório da
Imprensa, entidade que avalia a qualidade da mídia brasileira.
A melhoria da qualidade das informações sobre saúde não depende
apenas do empenho dos jornalistas. Os cientistas devem ser menos afoitos
na divulgação de seus trabalhos. As empresas necessitam repensar os
padrãos éticos de divulgação de seus produtos. O público precisa ser
cada vez mais exigente e crítico. Para não se privar até de uma simples
omelete.
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O avanço das pesquisas sobre alimentos produz informações
contraditórias. As principais mudanças ao longo do tempo
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