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Faz bem ou faz mal?

A gordura é ruim. Mas também existe gordura boa. Dá para comer ovo? E peixe? Vinho? Azeite? Depende. Você anda confuso com sua dieta? Pois pode se acostumar com a infindável batalha entre a mídia e a ciência

Cristiane Segatto e Solange Azevedo
Colaborou Mariana Sanches

Créditos REVISTA ÉPOCA

TOMATE
Estudos revelaram que o pigmento natural do tomate parece prevenir o câncer de próstata. Mas ninguém sabe ao certo se ele tem tanto poder assim

Num dia gordura faz mal. No outro, não é tão ruim assim. Diz o bom senso que chocolate não é boa coisa. Aí vêm os jornais e dizem que ele faz bem ao coração. O ovo já foi considerado um dos maiores vilões das artérias. Até que os cientistas mudaram de idéia. Um ovo por dia não faz mal, passaram a afirmar. Quem, durante décadas, reprimiu o prazer supremo de furar a gema de um ovo frito sobre um punhado de arroz - como o escritor Luis Fernando Verissimo - não foi indenizado. Vinho, azeite, salmão e tomate são a panacéia do momento. Se fossem consumidos com a freqüência com que suas supostas propriedades aparecem na mídia (e se elas fossem verdadeiras), ninguém mais morreria de câncer ou de doenças cardiovasculares. Ninguém mais envelheceria também. De onde surge tanta confusão?

Quanto mais a imprensa divulga notícias sobre dieta saudável, menos as pessoas sabem o que pôr no prato. A desinformação brota justamente do excesso de informações. Até os anos 80, a maioria das pessoas tirava suas dúvidas sobre saúde apenas com o médico. De lá para cá, um volume enorme de notícias sobre o tema ganhou espaço em jornais, revistas, internet, TV. Nos Estados Unidos, o número de reportagens sobre ciência (leia-se saúde, na maioria dos casos) que ganharam a primeira página dos jornais cresceu de 1% para 3% entre 1977 e 2004. No mesmo período, os artigos sobre assuntos internacionais perderam terreno. Caíram de 27% para 14% do espaço total.

O levantamento é do Projeto para Excelência em Jornalismo, um grupo que monitora a cobertura da mídia. Não há notícia de estudo semelhante no Brasil. 'Numa escala de 0 a 10, a cobertura de saúde no país merece nota 5', diz Carlos Vogt, coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e presidente da Fapesp. 'Muitas reportagens são complicadas, afoitas e levianas', afirma. Na maior parte dos casos, a abordagem é superficial e cheia de exageros. Noticia-se uma revolução atrás da outra.

A usina de bobagens prospera por várias razões. Os jornalistas têm pressa. Os cientistas precisam aparecer. As empresas querem vender. O público busca soluções rápidas. 'Quem tenta emagrecer e não consegue fica obcecado por resultados. Qualquer coisa aparentemente milagrosa que apareça na mídia vende muito', diz o endocrinologista Walmir Coutinho, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Nos últimos cinco anos, o tema dieta foi capa de 16 edições das três maiores revistas semanais brasileiras. Nesse período, a ciência não produziu conhecimento que justificasse tamanho destaque nos meios de comunicação. Como então eles arranjam tanto assunto? Em geral, as publicações atribuem aos estudos uma importância maior que a que merecem no mundo acadêmico. É assim que trabalhos irrelevantes do ponto de vista científico viram capa de revista. E, é claro, elas vendem muito.

Esse conflito está na essência da complicada relação entre a ciência e o jornalismo. Partindo do pressuposto de que há profissionais éticos e responsáveis dos dois lados, é importante lembrar que nem jornalistas nem cientistas saem de casa todas as manhãs pensando na melhor forma de enganar a população. Mas os bem-intencionados também erram.

Para os jornalistas, só é notícia aquilo que surpreende. Pesquisas que confirmam o que o senso comum já aponta não rendem manchetes. No mundo acadêmico, a lógica é outra. Os estudos médicos mais respeitados são justamente aqueles que reúnem milhares de trabalhos já publicados sobre o tema (conhecidos como metanálises) e procuram endossar ou refutar antigas concepções.

Em um artigo científico, cada afirmação precisa estar embasada em estudos anteriores. Uma palavra fora do lugar pode comprometer a credibilidade do pesquisador. Os jornalistas, por sua vez, estão acostumados a fazer grandes generalizações para tornar um assunto mais claro, mais atraente, mais vendável. Até quem não entende de comunicação percebe que o tema dieta gera enorme interesse. E, por isso, não é raro que o repórter de saúde receba do editor a seguinte tarefa: 'Precisamos de uma capa sobre dieta. Arranje alguma novidade'.

 

Nos últimos cinco anos, o tema dieta foi capa de 16 edições das três maiores revistas semanais brasileiras

Novidades sempre há, até mesmo no terreno desgastado das dicas de alimentação e das dietas milagrosas de emagrecimento. Em geral, porém, a mídia costuma extrapolar as conclusões dos estudos científicos. O que era válido apenas para determinada população - ou somente para camundongos - vira verdade universal. Foi o que aconteceu recentemente com a desastrada divulgação do mais longo estudo sobre consumo de gordura e risco de câncer e doenças cardiovasculares.

O estudo, financiado pelo governo americano, é o maior já realizado sobre o assunto. Durante oito anos, foram acompanhadas 50 mil mulheres entre 50 e 79 anos. A divulgação dos resultados da pesquisa que custou US$ 415 milhões aos cofres públicos deveria ser ótima oportunidade de educar a população. Em vez disso, a imprensa do mundo todo martelou a idéia de que comer pouca gordura não reduz o risco de câncer e doenças cardiovasculares.

Era o álibi que os gorduchos precisavam para abusar do torresminho, dos salgadinhos de boteco, dos doces encharcados de creme de leite. Faltou explicar que apenas uma pequena parte do grupo realmente conseguiu reduzir o consumo de gordura até chegar aos índices recomendados. Além disso, o aumento do consumo de legumes e frutas não foi seguido pelas voluntárias como deveria ter sido.
MITOS E VERDADES SOBRE DIETAS
Só se emagrece comendo menos?
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O processo de emagrecimento ocorre quando o balanço energético é negativo. Ou seja: quando a ingestão alimentar (calorias consumidas em um dia) é menor do que a necessidade de energia corporal diária e/ou quando o gasto de energia se torna maior (decorrente do aumento do metabolismo, seja por prática de exercício físico ou qualquer outra atividade que acarrete maior gasto de energia).
 

Isto ocorre porque o organismo utiliza as reservas de gordura corporal como fonte de energia. Portanto, o processo de engordar e emagrecer, na maioria dos casos, pode ser considerado uma 'operação matemática'. As calorias extras das refeições são armazenadas na forma de gordura. Quando são insuficientes, o organismo recorre às reservas como fonte de substrato energético para o metabolismo.

Entretanto, o emagrecimento deve ocorrer em decorrência de uma dieta saudável e equilibrada somada ao aumento do gasto de energia do corpo, seja pela prática de exercícios físicos ou mesmo aumento das atividades diárias, como andar a pé, substituir elevador por escada etc.

 

Tomate evita o câncer de próstata?
 

O tomate e seus produtos (principalmente o molho de tomate) são ricos em um pigmento natural chamado licopeno. Ele apresenta propriedades antioxidantes. Os antioxidantes combatem os radicais livres que alteram o DNA das células e desencadeiam o processo cancerígeno. Em 1995, pesquisadores da Universidade de Harvard avaliaram quase 48 mil homens e mostraram que a ingestão de 10 porções por semana de tomate e seus produtos reduziu o risco de câncer de próstata em 35%. Entre os que usaram molho de tomate, a proteção subiu para 66%. Mas os resultados ainda não são conclusivos.

Adoçante causa câncer?

Não existe evidência científica de que o uso de adoçantes aumente o risco de câncer em humanos. Quanto aos adoçantes de nova geração, não houve tempo para avaliação epidemiológica sobre o possível risco carcinogênico.

Abacate engorda?

O abacate foge muito da composição nutricional de outras frutas, pois é rico em gordura e pobre em açúcar. No entanto, tem na composição pouca gordura saturada (que apresenta efeitos maléficos para a saúde). A maior parte é formada por gordura monoinsaturada e poliinsaturada, que fazem bem à saúde - beneficiam o coração, diminuem o colesterol e apresentam ação antioxidante. Em comparação com outras frutas, o abacate tem valor de gordura bem aumentado, mas tem nutrientes importantes como folato e vitamina E. Por isso, deve ser consumido com moderação e pode, sim, engordar pelo consumo excessivo e/ou freqüente.

Fazer jejum emagrece?

O jejum não é a melhor forma de emagrecer. Reduzir ou abolir o consumo de alimentos por determinados períodos de tempo torna o metabolismo mais lento. A perda de peso ocorre de forma errada. Faz mal à saúde e não é tão eficaz. Desta forma, o organismo passa a manter uma maior reserva de gordura para utilização de energia caso ocorra um novo período de jejum.

O consumo de salmão evita hipertensão e acidente vascular cerebral?

Em termos. O salmão é rico em ácidos graxos ômega 3. Esse ácido reduz a formação de coágulos, diminui os triglicérides e previne a ocorrência de arritmias. Estudo realizado pela Universidade de Harvard com 22 mil voluntários demonstrou que a ingestão de peixe no dia-a-dia reduz pela metade o risco de ataque cardíaco e derrame. Mas ainda não há consenso sobre isso.

Berinjela reduz o colesterol?
 

Não. Ela é popularmente recomendada para esse fim e faz sucesso na internet. Mas estudos realizados em seres humanos não mostraram efeitos benéficos da berinjela sobre as concentrações de colesterol.

Azeite de oliva faz bem ao coração?
 

Sim. O azeite de oliva traz diversos benefícios ao coração. Destacam-se: inibição de radicais livres, menor oxidação do colesterol ruim (LDL) e diminuição da ocorrência de trombose. Recomenda-se o azeite extravirgem.

Vinho faz bem ao coração?

Sim. Alguns estudos indicam que ele ajuda a aumentar o bom colesterol (HDL). Substâncias presentes na casca da uva rosada (chamadas de flavonóides) possuem propriedades antioxidantes, vasodilatadoras e antiagregante plaquetária. Entretanto, não se justifica o seu emprego com tal finalidade, pois pode ocasionar alcoolismo, distúrbios de comportamento, aumento dos triglicérides, arritmia etc. Uma alternativa seria substituir o vinho pelo suco de uva.

A margarina é mais saudável que a manteiga?

Sim. A margarina, produzida pela hidrogenação dos óleos vegetais, é menos prejudicial à saúde que a manteiga, que é rica em gordura saturada e colesterol. Porém, durante o processo de fabricação das margarinas, ocorre a produção de ácidos graxos trans, também prejudiciais à saúde. Quanto mais dura a consistência da margarina, maior será o teor de ácidos graxos trans. Hoje já existem no mercado marcas livres de gordura trans.

Beber líquidos durante as refeições aumenta a barriga?

Se a quantidade de líquidos ultrapassar 200 ml, pode atrapalhar o processo de digestão. E isso provoca distensão abdominal. O comprometimento do processo de digestão vai além. Com dificuldade para digerir alimentos, o organismo destina maior fluxo sangüíneo para a região comprometida. Isso provoca menor oxigenação no cérebro. A conseqüência é o sono.

Comer carboidratos à noite engorda?

Depende. Se a quantidade de carboidrato na refeição noturna ultrapassar a necessidade do organismo, engorda, sim. A principal fonte de energia para o corpo humano são os carboidratos. Eles estão presentes nos cereais, tubérculos, macarrão, pães etc. A distribuição adequada desse nutriente deve corresponder a 50% ou 60% do valor calórico total de um dia alimentar. No entanto, ele deve estar presente nas principais refeições, em quantidades adequadas. Recomenda-se o consumo de produtos integrais, como arroz integral, macarrão integral, pães e biscoitos integrais. Ricos em fibras, garantem saciedade e melhor funcionamento intestinal.

Melancia é diurética?

A melancia é composta por 80% de água. Portanto, inserida dentro de uma alimentação equilibrada nutricionalmente, ela contribui para maior ingestão de líquidos, aumentando, conseqüentemente, o volume urinário.

Sopa de repolho ou chá verde causam emagrecimento?

Nenhum alimento, por si só, é capaz de, por propriedades 'mágicas', causar emagrecimento. O que emagrece é o balanço de energia negativo. Ou seja, gastar mais energia e ingerir menos calorias.

Comer nozes engorda?

Sim. Nozes são calóricas. Uma única unidade tem quase 40 calorias. Sendo assim, se comermos muitas nozes diariamente, contribuiremos para aumentar o aporte calórico e, conseqüentemente, o peso aumenta. Em quantidades moderadas (1 noz/ por dia), esse alimento tem propriedades antioxidantes e protetoras da saúde do coração.

Frutas e vegetais frescos têm mais nutrientes e vitaminas do que os congelados, cozidos ou em conserva?

Sim. Durante o processamento, os alimentos podem perder parte de alguns nutrientes, principalmente a vitamina C.

Cereais matinais suprem as necessidades diárias de fibras?

Precisamos de aproximadamente 25g de fibras por dia. Portanto, precisamos de cereais integrais, frutas, verduras e legumes. Uma única porção de cereal matinal não supre essa necessidade. Mesmo porque, é importante lembrar que alguns cereais como flocos de arroz ou flocos de milho podem apresentar menos de 1 g de fibra por porção.

Sucos naturais podem ser consumidos à vontade?

Não. As frutas têm calorias e os sucos, principalmente os concentrados, têm uma alta densidade energética, o que pode contribuir muito para aumentar a ingestão calórica. O ideal é consumir de 2 a 4 porções de frutas por dia.

Lanches saudáveis

Como reforçar a alimentação das crianças

O lanche da manhã e o da tarde são tão importantes quanto o almoço e o jantar. Quando o hábito de comer várias vezes ao dia é adquirido na infância, a pessoa não tem dificuldades de fracionar as refeições na idade adulta
O fracionamento garante a sensação de saciedade e fornece os nutrientes necessários. É a chave do sucesso de qualquer dieta de emagrecimento
Permitir que a criança belisque guloseimas à vontade, sem horários definidos e em qualquer lugar, leva à formação de maus hábitos alimentares
O lanche das crianças deve ser planejado com antecedência, de preferência para toda a semana

SUGESTÕES DE CARDÁPIO

Bolos e biscoitos preparados com aveia, farinha de trigo integral e frutas secas
Coalhada e iogurte naturais ou batidos com frutas e adoçados com pouco açúcar ou mel
Sucos de frutas naturais sem coar e com o mínimo possível de açúcar
Leite integral batido com cereais ou frutas sem açúcar
Pães (de preferência caseiros) servidos com queijo, manteiga ou geléia
Salada de frutas com ou sem sorvete

A análise cuidadosa do discurso torna possível perceber que o risco de câncer de mama caiu 22% entre as mulheres que adotaram as maiores reduções no consumo de gordura. A dieta com quase nenhuma gordura não reduziu o risco de câncer colorretal. Mas produziu menos pólipos no intestino, lesões que podem originar o câncer. Outra limitação do estudo foi o tempo de acompanhamento: apenas oito anos.

 

Maus hábitos alimentares são uma das principais causas de doenças crônicas como as cardiovasculares, o diabetes, a obesidade e o câncer, segundo a Organização Mundial da Saúde. Mas essas mazelas levam décadas para aparecer. O acompanhamento das pacientes continua e, provavelmente, os efeitos benéficos da dieta equilibrada poderão aparecer nos próximos anos. E, mais uma vez, as manchetes vão contrariar o que foi dito antes.

O exemplo clássico desse vaivém que desnorteia o leitor são as notícias sobre a dieta de Atkins, que postula uma redução drástica no consumo de carboidratos e libera o de gorduras e proteínas, como as do ovo. Atkins soube promover sua dieta desequilibrada desde os anos 70 sem nunca destinar parte dos lucros para financiar estudos clínicos sobre seus efeitos. É verdade que a dieta faz emagrecer rapidamente. Mas quem se aventura nesse plano recobra todos os quilos (e um pouco mais) alguns meses depois, segundo a Abeso. Não é de hoje que os médicos alertam para o risco de doenças cardiovasculares, distúrbios renais e o terrível efeito sanfona.

O presidente Lula foi vítima dele em 2003, quando adotou a dieta de Atkins. Recentemente perdeu 12 quilos graças a uma versão mais leve dessa dieta, que permite carboidratos em pequenas quantidades.

Apesar disso, volta e meia ela renasce das cinzas com a ajuda da imprensa. Em 2001, uma revista semanal publicou entrevista na qual Atkins dizia seguir a própria dieta havia quase 40 anos. Afirmava que ela não só era eficiente como havia livrado seus pacientes de remédios contra a hipertensão, o diabetes ou a artrite. Pois Atkins sofreu morte súbita em 2003. Pesava 116 quilos. 'A família tentou esconder o fato, mas a necropsia constatou que ele tinha as coronárias entupidas. O excesso de proteína animal e gorduras da dieta de Atkins provoca problemas cardiovasculares', afirma Mário Maranhão, ex-presidente da Federação Mundial de Cardiologia.

A dieta de Atkins - cuja empresa entrou em concordata no ano passado - não foi a única badalada pela mídia a tombar vítima da realidade. Em 1968, Linus Pauling, duas vezes laureado com o Prêmio Nobel (Química e Paz), propôs as bases da medicina ortomolecular. De lá para cá, a idéia de que doses elevadas de vitamina C evitam gripes, resfriados e até o câncer embalou inúmeras manchetes. Linus Pauling morreu em 1994, aos 93 anos. O consumo diário de 15 gramas de vitamina C não o livrou do câncer de próstata. Hoje, o máximo que se recomenda desse nutriente são 500 miligramas por dia, segundo Maranhão.

 
Depois de 40 anos comendo gorduras, Robert Atkins sofreu morte súbita

A grande dificuldade da pesquisa sobre alimentos é que ninguém come uma coisa só. Por isso é tão difícil conferir os efeitos de determinado nutriente. O tomate virou a aposta da moda. Um pigmento natural presente nele, chamado licopeno, parece estar envolvido na prevenção do câncer de próstata, segundo algumas pesquisas. Mas será que é o licopeno sozinho ou o licopeno com o tomate que tem esse efeito? E quanto de tomate seria necessário ingerir para se proteger da doença? Ninguém sabe. As mesmas dúvidas persistem em relação a outros itens badalados como salmão, vinho tinto, chocolate.

'Muito do que é recomendado hoje provavelmente deixará de sê-lo daqui a dez ou 15 anos', diz José Augusto Taddei, nutrólogo do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo. No início dos anos 90, o consumo de azeite de oliva era contra-indicado. 'Hoje, sabe-se que essa é uma das melhores gorduras que existem', afirma Taddei. Trata-se de um óleo rico em ácidos graxos monoinsaturados, aos quais se atribui algum papel na prevenção de problemas circulatórios. Na comunidade científica, cada descoberta é agregada à informação já existente. É como se fosse um edifício em que se agrega um tijolinho. Um único estudo - por maior que seja - é insuficiente para mudar as recomendações alimentares da população, embora as manchetes façam crer o contrário.

Muitas vezes as mensagens parecem contraditórias, mas são fruto do avanço do conhecimento. Amargarina, por exemplo, foi muito recomendada pelo governo americano quando se acreditava que ela fosse mais saudável que a manteiga. Com o tempo - e muitos estudos epidemiológicos -, os pesquisadores descobriram que a gordura vegetal hidrogenada presente na margarina é tão ruim para a saúde quanto a gordura animal. Durante o processo de fabricação, a gordura da margarina se transforma nas perigosas gorduras trans, um sebo que também entope as artérias. Hoje já existem no mercado várias marcas de margarina livres de gorduras trans.

As pesquisas sobre nutrição podem ser muito complicadas e exigir mudanças de rota que confundem a população. Muitas vezes, porém, a imprensa recomenda mudanças de hábito por conta própria. Um dos episódios mais traumáticos foi o do lançamento do remédio Xenical em 1998. O medicamento reduz a absorção de gorduras em 30%, mas está longe de ser um passaporte para a farra gastronômica. Ainda assim, a inovação farmacológica em um ramo com poucas opções eficazes era uma grande notícia. Merecidamente, foi assunto em vários meios de comunicação. Mas na maioria dos casos a abordagem foi desastrosa. Uma revista estampou na capa um prato em forma de rosto. Ovo frito no lugar dos olhos, coxinha no nariz, sorriso de lingüiça. O título: 'Comer sem engordar'.

'Quase todos os profissionais que falaram à revista eram consultores do laboratório, inclusive eu. Todos disseram que a publicação não poderia passar a idéia de que quem toma Xenical pode mergulhar de cabeça na gordura. Mas colocaram até outdoors dizendo que havia chegado a pílula para tomar antes de ir à churrascaria', afirma Marcio Mancini, endocrinologista do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Os jornalistas não são os únicos responsáveis pelo desserviço. Nas últimas décadas, cientistas e médicos passaram a fazer parte da máquina da mídia. Antigamente, os que divulgavam estudos ainda em andamento eram esculhambados pelos colegas. Hoje, a pressão para que apareçam na imprensa é enorme.

 

Jornalistas generalizam conclusões de estudos para tornar as reportagens mais atraentes

Hospitais e universidades enviam aos jornalistas textos sobre avanços muitas vezes preliminares. As instituições acreditam que, com a exposição na mídia, vão ganhar apoio do público e verbas para pesquisa. Ao mesmo tempo, empresas farmacêuticas e alimentícias contratam médicos como consultores e os indicam aos jornalistas como fontes. 'A mídia faz parte desse processo, como nós, médicos, também. As empresas oferecem US$ 10 mil ao médico para que ele faça um almoço de trabalho em um congresso. Ele dá uma aula toda dirigida ao produto que a empresa quer vender', diz Taddei.

Nem sempre a imprensa se dá ao trabalho de verificar quem financiou a pesquisa que vai virar manchete. Boa parte dos estudos é patrocinada por empresas, o que pode comprometer a confiabilidade das pesquisas. A nutricionista americana Marion Nestle, da Universidade de Nova York, levantou casos chocantes. No livro Food Politics, ela conta como as companhias fazem lobby para mover a política oficial a favor de seus interesses, passando por cima da saúde pública. Absurdos coletados por Marion nas revistas científicas: um estudo afirmava que cereais matinais ricos em fibras podem reduzir o risco de câncer. Foi feito por um funcionário da Kellog's. Outro dizia que margarina era melhor que manteiga para reduzir os níveis do colesterol ruim, o LDL. Foi financiado pela Associação Nacional dos Produtores de Margarina.

Um dos famosos estudos que associam a ingestão de duas a cinco taças de vinho tinto por dia à redução da mortalidade foi patrocinado pelo Instituto Técnico do Vinho Francês. Boa parte das pesquisas que sugerem que substâncias encontradas no cacau (chamadas flavonóides) podem proteger o coração foi bancada pela Mars, uma das maiores fabricantes de chocolate dos Estados Unidos.

ESCOLHA COMPLICADA
Com tantas dicas contraditórias, é cada vez mais difícil saber o que colocar no carrinho

Isso não significa que todos os estudos patrocinados pela indústria sejam um embuste. Na maior parte dos países, o governo financia a ciência básica. Mas o conhecimento gerado nas universidades só se transforma em produtos se as empresas investirem milhões e milhões nas etapas seguintes do desenvolvimento. Quando as relações dos cientistas com a empresa são divulgadas com total transparência, não há por que duvidar dos resultados. Muitas vezes, porém, resultados ruins para a empresa são mantidos em sigilo.

Mas, quando a conclusão dos estudos é positiva, as empresas produtoras de alimentos e a indústria farmacêutica colocam uma esmagadora máquina de divulgação para funcionar. 'Há 15 dias, recebi 20 artigos publicados em 2005 e 2006 pela Nestlé. Todos eles favoráveis aos produtos da empresa', diz Taddei. Nessa mesma onda, há empresas de refrigerante que encomendam revisões científicas e afirmam que o produto não faz mal. Há também fabricantes de cerveja que dizem que ela é um bom alimento, desde que consumida sem exagero.

Quem não se lembra do pânico do aspartame? Muita gente baniu esse tipo de adoçante do cardápio depois que os jornais publicaram estudos (realizados em camundongos) que o relacionavam com o surgimento de câncer. A boataria correu solta na internet. Mas nenhuma pesquisa de longo prazo comprovou que ele seja maléfico. 'Esse caso demonstra a força do lobby da indústria. Fabricantes de outros tipos de adoçante encomendaram essas pesquisas para tentar provar que o aspartame é prejudicial', diz Anita Sachs, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp.

As pressões da indústria também se tornam visíveis durante a criação das diretrizes nutricionais divulgadas pelos governos para toda a população. Nos Estados Unidos, recomenda-se que os adultos consumam 1.000 miligramas de cálcio por dia, o equivalente a quase 1 litro de leite. Estudos feitos na Escandinávia revelam que 500 miligramas de cálcio são suficientes para prevenir osteoporose. 'É muito provável que a indústria americana de laticínios esteja forçando a recomendação de 1.000 miligramas de cálcio para aumentar o consumo de leite e derivados', diz Anita.

 

Quem tenta emagrecer e não consegue acredita em qualquer receita milagrosa

O poder de influência também é exercido por meio de anúncios agressivos na TV. O alvo das propagandas quase sempre são as crianças. Uma pesquisa realizada pela Unifesp em 2005 mostra que 10% do tempo de propaganda feita na TV no horário da programação infantil é ocupado por anúncios de alimentos. Foram avaliadas dez manhãs da programação do SBT e dez da Rede Globo. Como é de esperar, ninguém anuncia leite, arroz, feijão, frutas ou verduras. Só aparecem biscoitos, refrigerantes, guloseimas de todo tipo. 'As pessoas comem cada vez pior no Brasil e são vitimadas pelos interesses comerciais que o governo não consegue regular', diz Taddei.

É possível identificar interesses e distinguir a informação que realmente importa na montanha de textos sobre saúde que lotam a caixa de mensagens dos jornalistas todos os dias? A tarefa não é fácil. 'Quase todos os estudos terminam com mais perguntas que respostas e, infelizmente, os resultados são interpretados pela maioria dos jornalistas como definitivos. Até hoje há gente tomando suco de berinjela crua achando que corta o colesterol', diz Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia. 'O jornalista não precisa ser um cientista, mas precisa conhecer as nuances que fazem toda a diferença', diz Alberto Dines, editor-responsável do Observatório da Imprensa, entidade que avalia a qualidade da mídia brasileira.

A melhoria da qualidade das informações sobre saúde não depende apenas do empenho dos jornalistas. Os cientistas devem ser menos afoitos na divulgação de seus trabalhos. As empresas necessitam repensar os padrãos éticos de divulgação de seus produtos. O público precisa ser cada vez mais exigente e crítico. Para não se privar até de uma simples omelete.

O avanço das pesquisas sobre alimentos produz informações contraditórias. As principais mudanças ao longo do tempo

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